Text Box: O tempo, no teatro, foge ao seu sentido arqueológico. O tempo que Gil Vicente  põe em marcha com o “Auto da Barca do Inferno” não pertence apenas ao século XVI, mas atravessa todas as épocas.
 
Acreditamos que ainda hoje aqueles dois juízes, aqueles “pescadores de almas”, Anjo e Diabo, estarão à nossa espera para nos apontar defeitos e virtudes, erros e boas acções.
 
Nesta encenação, procurámos realçar a diferença entre os papéis activo e passivo do Diabo e do Anjo, conferindo ao primeiro a imagem de um andrógino mestre de cerimónias, pronto a receber na sua Barca uma variedade de convidados, e ao segundo a quietude de um ser que espera poucos visitantes, imperturbável como uma borboleta num casulo.         
 
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente